terça-feira, 17 de abril de 2012

agora não

Está ocupada
OCUPADA

com nada

Mas finge
vida de esfinge
dá-se ares
sopra apressada

parada

Tem tudo
em espera
mil afazeres
planos
projectos

Um grande livro
a escrever
se não morrer

adiado
desde que o sol
a viu nascer

Tem medo
merece carinho
e repouso

E chorar
choraria
se não estivesse
à espera
ocupada
de fazer nada

não dá

Não fala
e não responde
muda

desde que
lhe ficou
preso nas cordas

um sorriso

Mas largá-lo
nem pensar
tem-no seu
sente-o
na posse

Não sabe
(e será
que ainda aprende?)
que cativo
um sorriso
pesa na alma

desânimo

Cruel
pesada
a vida
que se mobila
no jazigo

Não vê
não sente
podia até
dizer
Bem-me-quer

Mas escolheu
fatal
assustada
chamar
a flor
Mal-me-quer

sábado, 14 de abril de 2012

e na falta tem abrigo

Calcorreia
pisando
a alma
parva
diante dela pasmada

Repisa
sem sentir
(e gemer
seria burro,
pois não há
mais fatal
que piedade
ou desdém,
à intimidade)

Inconsciência
consciente
maldade
por vício
vazio
e defesa
Sente que pisa
e que assim vive

Testa
põe à prova
sem poder
nunca trair
esperar
que não se afaste

Mas teme a si própria
sabendo
que bem pode
sucumbir
à compulsão
e não conseguir
articular um
"Fica"

Dois terrores
a consomem
desassossegam
entregar-se
sem reservas
e não saber
guardá-lo

Quem em calabouços
cresceu
beija-lhes
as paredes,
quem carinhos não teve
sente sua
a falta deles

com vista alegre

Sim, e porque, enfim,
tem nos pergaminhos
a segurança,
tudo demasiado pequeno
para ter onde
assentar os pés
e saber quem é

Mas que outra via,
querendo traçar fronteiras
em país de Liliput,
haveria,
senão erguer muros
a cortar a luz
para que claro fique
sermos nós,
que o vizinho, muito mais?

Ficaram
vã-glórias
ilusões acalentadas
em detalhe
e só
guerras e veneno
pois, mais que o nome
e admiração pelos antepassados,
contam
a cómoda, o anel, a moradia
e o Vista Alegre

domingo, 8 de abril de 2012

quando um dia

Quando o tempo te agarrar
pelas pernas
perras
quando as ilusões te deixarem
a sós
com a memória
de outros desencontros

Quando ecos
de presunções antigas
fizerem voz surda
com as sombras
de cálculos falhados
e o vazio
não admitir máscaras

Quando os fantasmas
tiverem esgotado
promessas impossíveis
e o silêncio
gritar o engano
de uma vida
mal apostada

Deixa que fale
a sede
em ti calada
tanto tempo
por medos algemada
de um toque
carinho e presença