terça-feira, 5 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
mão cortada, não rouba
Feliz
- quase plenamente. Repousada, pelo menos. Segura. E seria assim sempre, se não
fossem aqueles momentos quando a dúvida vinha turvar-lhe a paz e roubar-lhe a
luz. O receio de perder tudo, a suspeita de traição, o medo de ser enganada. Convocados
os fantasmas tremendos da solidão e do abandono, sucumbe, assediada pela
angústia. Em pânico, repete então a fuga desesperada de sempre: antes só, que
apavorada. O passo seguinte, inevitável, é expulsar aquele que, pela razão
precisamente de uma presença e fidelidade, despoletou a insegurança.
terça-feira, 29 de maio de 2012
haja paz
Tece impacientemente
Não como o tecelão,
que tem o tempo que tem o mundo,
mas tece
também longamente.
Ansiosamente, porém.
Receosa,
de si desorientada,
abalada
nos fundamentos.
Tece teimosamente.
Sem raízes, sem prazer.
Como por castigo,
isolada
no degredo.
Aprendeu a gostar deste silêncio,
como quem se afeiçoou
às paredes de um jazigo,
anos depois
de se ter fechado
nelas.
Assaltada pelo medo,
única intimidade,
entregou-se à vertigem,
proprietária daquela sorte,
porque teima nela.
Enche de ecos surdos
o vazio
onde chama luz à penumbra.
Questão de hábito.
Tece um casulo.
E dali não sairá.
Porque ninguém percebeu
que só à força
se arranca à morte um morto.
De respeitos humanos estão as morgues cheias.
Para descanso dos hipócritas e cobardes.
Não como o tecelão,
que tem o tempo que tem o mundo,
mas tece
também longamente.
Ansiosamente, porém.
Receosa,
de si desorientada,
abalada
nos fundamentos.
Tece teimosamente.
Sem raízes, sem prazer.
Como por castigo,
isolada
no degredo.
Aprendeu a gostar deste silêncio,
como quem se afeiçoou
às paredes de um jazigo,
anos depois
de se ter fechado
nelas.
Assaltada pelo medo,
única intimidade,
entregou-se à vertigem,
proprietária daquela sorte,
porque teima nela.
Enche de ecos surdos
o vazio
onde chama luz à penumbra.
Questão de hábito.
Tece um casulo.
E dali não sairá.
Porque ninguém percebeu
que só à força
se arranca à morte um morto.
De respeitos humanos estão as morgues cheias.
Para descanso dos hipócritas e cobardes.
domingo, 27 de maio de 2012
sem pouso
Cercou-se e encerrou-se. Atranvancou-se. Deixou um pequeno orifício para espreitar. Mas assustou-se, com o sopro do seu próprio respirar. Consumiu-a a ansiedade, pobre. E correu a procurar tudo o que tinha em redor, para de tudo fazer defesas, espinhos, carapaça, paus e ferros, armas do fogo que lhe queima a alma. Endureceu, toda ela crispação e medos. Até que, cansada (muito cansada), decidiu fingir-se morta.
E estaria bem, acreditou, se a deixassem assim morrer, sem a chamarem pelo nome, de volta à vida. Coisa irritante, ofensa suprema, desrespeito - agora que estava já meio-morta.
E estaria bem, acreditou, se a deixassem assim morrer, sem a chamarem pelo nome, de volta à vida. Coisa irritante, ofensa suprema, desrespeito - agora que estava já meio-morta.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
miudezas
Acusar os outros de falhas que sabemos nossas, é fraqueza humana compreensível. Acontece aos melhores. Conta é aquilo que fazemos depois de cair em si. O que distingue uma pessoa honesta da gente pequena, é ousar reconhecer. A escolha do batoteiro é transvestir a cobardia em coragem, transformando-a em terrorismo.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Não que não queira
Diz que não. Nem sequer porque não desejasse. Tem é receio de não conseguir. A inquietação que lhe vem desta insegurança, basta para lhe bloquear o desejo. O outro lado da margem torna-se mais distante com cada experiência abortada. Esboroada a confiança, resta-lhe, como única certeza, a crença na fatalidade do fracasso.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Stockholmssyndromet
Um pai
e um complexo de Elektra
Um autista
escondido
atrás de uma imagem
de génio
Perverteu
violou
os sentimentos
apoderou
a sensibilidade
tornou escrava
e cativa
Era só uma menina
esfomeada
de carinho
e sem mãe
que a protegesse
Insinuou-se
na intimidade
de uma alma escancarada
presa fácil
Sabia-se impune
Tinha-a por
indefesa
dependente
e propriedade
Se outros
podiam medi-lo
e perceber
desdenhar
humilhar
calar
afastar
Ela estava-lhe na mão
Dominador
Não hesita
perverter
Paralisou
atrofiou
uma filha
(estava justificado,
dizia não suportar crianças)
Deixou um ser coxo
enclausurada
trancada
nos calabouços
de uma paixão impossível
envenenada
Violada
na alma
nunca mais
soube olhar-se
nos olhos de um homem
entregar-se
acreditar ser amada
O carrasco
tem as chaves
daquele coração
É ali senhor
tirano
modelo
exemplo
meta
Confundida
no mais íntimo
Os homens magoam-na
por não serem
o pai
Quanto mais a amam
mais violenta a repulsa
(não pode abandonar-se,
está comprometida
com o carrasco)
Cresceu no
Stockholmssyndromet
Não pode ser mulher
enquanto
não matar
o pai
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