quinta-feira, 23 de agosto de 2012

está lá?

Desculpe, mas não posso abrir. Estou à espera do meu príncipe encantado. Ainda espero, imagine-se, depois de tantos equívocos. E não abro. Cheguei a pensar ser ele, até que me apercebi ser mais um primitivo. De cada vez, o mesmo. Que horror, são imperfeitos. Vou arranjar outro, hei-de ter o meu príncipe. Inteligente (mas não mais que eu, seria desconfortável). Meigo (aquele outro era um bruto, afinal, dizia que tenho defeitos, o que considero um insulto inadmissível). Estará presente, será companhia (se me fartar ou me sentir irritada, ponho-o na rua). Virá sempre que o chame (chamarei a polícia, se não quiser sair). Entregar-lhe-ei o meu coração (ou não, se preferir o repouso ao amor, pois é dor a mais). Serei dele (quem manda sou eu). Será bom para mim (iria com patifes, porém). Sincero (sei adivinhar que mente, não me fio, a mim não me engana). E será forte, seguro de si (não suporto o ar de certeza, arma em superior). Há-de vir, o meu príncipe. Estou cansada de primitivos. A mim, já não enganam.

não aconteceu

Esconderam-se os pássaros,
nem memória
deixaram
Não falam as folhas das árvores
e o silêncio
emudeceu

Mil vezes receou,
ocupada a fugir
Não sabia estar,
escorregava-lhe
o presente
pelas escamas

Sopram os ventos
que pavor é sofrimento
e cálculo, cobardia
Vozes que não chegam
àquela concha,
fechada desde que
lhe comoveram
as entranhas

Tirita
longe de um abraço
não vá desfalecer-lhe
no peito
Parou a vida
e o sangue,
guarda-se intacta,
embalsamada,
preserva
o que não existe

E ninguém ousa
saber
se isto é força
ou fraqueza,
onde está
o querer
e o poder,
nem qual o lado
do mundo
que uma porta encerra

domingo, 5 de agosto de 2012

anda a monte

Ousada na linguagem, atrevida no simular, irreverente na sedução, desbocada no provocar. Encosta à parede os outros, choca e surpreende, goza o próximo e põe à prova.
Defendida neste jogo, atropela sem olhar. Ligeira, em pose leviana, dá-se ares, finge à-vontade. Até que, confrontada, foge, agarrada à máscara. E repete então não entender, porque dizem dela terrorista.
Era tudo a fingir.

sábado, 28 de julho de 2012

tem razão

"Só é tua a loucura, onde, com lucidez, te reconheças"
Miguel Torga in Diário XIII (Sísifo)

Torga engana-se. Nesse caso, não é loucura, a menos que estejamos a chamar loucura ao destemor. O louco não se sabe presa da loucura. Recusa admitir que a realidade não seja inteiramente abrangível pela razão. Não se conhece, por isto, a si próprio nem aos outros. Como dizia Chesterton, o louco não perdeu a razão - perdeu tudo, menos a razão. Ocorre pensarmos que o louco é livre, porque não se dobra à realidade. Falso - está refém de si próprio e alienado da realidade e dos outros.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

ilimitada

Definido
medido
pesado

por um fio
uma birra
um capricho

julgamento
em detalhe
sangue novo
tolo de certezas

arrogância
impertinente
adolescência
totalitária

Basta-se
a si própria
cuida
de se elogiar

E houve quem
pensasse
ser por insegurança
antes de a ver governar

terça-feira, 24 de julho de 2012

teimosos

Branca ou preta, talvez. Mas não do arco-íris, pois esta é bandeira que aos homossexuais não pertence. E não tem nada a ver com o direito de o serem ou de o fazerem. O arco-íris é a bandeira das diferenças. O mundo homossexual é o contrário, escolhe o igual, não quer o diferente. É dos heterossexuais esta teimosia em sofrer o atrito da diferença, em se deixar limar pelo contrário, em procurar entendimento com olhares opostos. Enfrentam o desafio eterno da diferença. Não desistem, apesar de se saberem levados por uma paixão que nunca terá sucesso perfeito. Não procuram a perfeição nem se satisfazem com o igual. Querem o diferente. Sucumbem ao fascínio do "outro". É deles a bandeira do arco-íris.

sem defesas

E quando
assim
da rocha sólida
sangram lágrimas

Da seara
luminosa
teimosa de vida
gemidos escapam

sinceros

É por menor
sofrimento?
A franqueza ingénua
é menos profunda?

É mais sério
o sério,
ou
o palhaço?